Mostrando postagens com marcador Elisa Carvalho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Elisa Carvalho. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Kusturica Transversal 02 #5 [Elisa Carvalho]


               Seguindo o rumo da última postagem, nessa vou abordar novamente temáticas que perpassam os filmes do diretor Emir Kusturica, como algumas metáforas recorrentes, e a religiosidade.
                Em uma entrevista feita em 2004 Kusturica diz:  ”I search God. One God. It's difficult. I try to go toward a philosophical way of thinking, I try not to divide things, not to separate, like the Church does, profane from the sacred”. É curioso notar essa convivência efetiva entre profano e sagrado em seus filmes. Na primeira postagem eu falei um pouco dessa relação no mundo cigano, em que mostra pessoas que possuem grande fé religiosa, mas se sentem desamparados, jogados a própria sorte, e cometem atos desonestos, que acabam sendo uma característica cultural.
A imagem da cruz de Jesus invertida é utilizada em alguns filmes, em momentos de desespero perante a dura realidade do mundo. “Deus, o que tem feito? Você retornou pelo buraco do mundo, Merdzan vai reerguê-lo novamente, mas deve me ajudar, se não puder você mesmo deverá se levantar” (Vida Cigana). Existe uma crença nessa imagem, uma devoção, o personagem beija a cruz e a levanta, mas na ultima cena do filme ela cai novamente sozinha. Os personagens nos filmes, na minha opinião, sempre apresentam essa dubiedade, nenhum deles são construídos de forma maquineísta, apresentam suas elevações como também seus tropeços, não existe um julgamento pontual dos atos, são dúbios em sua construção e humanizados. Em Underground isso também fica muito claro, quando o personagem Petar manda matar acidentalmente em meio a guerra, o amigo Marko e a mulher que amou, Natalija. A cena é muito forte, está presente no centro, a cruz invertida, a qual é circundada pela cadeira de rodas do amigo, em chamas.
Um outro elemento que se repete é um véu de noiva que sempre está planando pelos ares, que notei nos filmes Vida Cigana, Gata preta Gato branco. Em cada uma das narrativas o véu assume diferentes significados. Em Vida Cigana, a irmã de Pehan(personagem principal) vê o véu na estrada, dentro do carro, quando está em direção a uma perigosa cirurgia, e ela descreve ele como sua mãe. Seria como um espectro a protegê-los e guiá-los, um significado mais espiritual. Já no outro filme o véu voando pelos campos seria mais como uma alusão á noiva que havia fugido do casamento forçado. Existe uma forma parecida com que o objeto é filmado, sempre flutuando no vento, como que se perdendo no espaço. 




Leia Mais >>

domingo, 10 de junho de 2012

Kusturica Transversal 01 #4 [Elisa Carvalho]


"Vida Cigana" - 1988
           
              Ao aprofundar meus conhecimentos sobre o diretor Emir Kusturica, com a realização do projeto, pude perceber que vários aspectos nos seus filmes são recorrentes. Dessa maneira, vou alterar um pouco o cronograma proposto para as duas últimas postagens, e fazer uma análise mais transversal entre os filmes assistidos.
            A música tem um papel fundamental em seus filmes, primeiramente pelo próprio Kusturica ser músico e integrante da banda Kusturica & No Smoking Orquestra que desenvolveu um estilo muito próprio de gypsy rock. A sua música possui muito em comum com a trilha sonora de seus filmes, e algumas vezes foi a própria banda que compôs a trilha, como a música “Pitbul Terrier” do mafioso de Gata Preta Gato Branco .   http://www.youtube.com/watch?v=OrTbx3JOgwo (Pitbul Terrier)

"Gata Preta, Gato Branco" - 1998
           
           É a música que dá ritmo a montagem e ao espírito frenético e caótico em seus filmes, são parte fundamental não somente como complemento, mas para compor a ambientação do filme, assim como a narrativa. E muitas vezes a trilha é feita “em tempo real”, existe sempre uma banda que toca músicas ciganas em várias cenas, como por exemplo em Underground, em que ela segue os personagens insistentemente, até chegar a incomodá-los. Outro exemplo é a banda amarrada na árvore em Gata Preta Gato Branco.

            "Gata Preta, Gato Branco" - 1988
          É interessante reparar também na presença unânime de animais em todos os filmes do diretor, (praticamente em quase todas as cenas, me arriscaria dizer). Peru, gatos, macacos, porcos, burros, ursos, patos, invadem as cenas não apenas como complementos, mas muitas vezes para  fazer parte da narrativa. Existe uma certa humanização dos animais, que passam a ser personagens, como por exemplo a macaquinha Soni em Underground, que participa de todas as cerimônias e é a única que acha o tão desejado caminho de volta para o porão, ou também o peru que é o melhor amigo de Pehan, em Vida Cigana. Essa presença pode ser uma metáfora para o lado instintivo e emocional tão evidentes na natureza humana, e muitas vezes negados por aqueles que acreditam fielmente no poder da razão.
             É ainda impressionante como existe um direcionamento da, se podemos dizer assim, atuação dos animais, muitas vezes tão expressivos e uma veracidade incomum.   

                                              "Underground- mentiras de guerra" 1995- bombardeio do zoológico 

www.kustu.com > site oficial do cineasta
www.makingoff.org > o prometido site para baixar os filmes, tem que fazer um cadastro mas vale muito a pena!

Leia Mais >>

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Gata Preta Gato Branco, de Kusturica [Elisa Carvalho] #3


                                         

Depois de Emir Kusturica ter sofrido diversas críticas pelo seu filme Underground, relacionadas á sua suposta posição política com relação á “Guerra Iogusláva”  veiculada no filme, este declara o fim da sua carreira. Entretanto, o diretor não consegue se desvencilhar  da sua poderosa forma de expressão que está ligada a ele desde a época do colégio e dá a luz ao filme “Gata Preta, Gato Branco” em 1998.
Como era de se esperar, o filme se desvencilha da forte carga política que outros filmes possuíam, como “Underground” e “ Quando Papai saiu a viagem de negócios”  e é desenvolvido de uma forma mais leve chegando quase a ser uma comédia romântica Balcânica cigana. O cineasta mergulha na sua fascinação pelo universo cigano, e retrata de uma maneira caricatural os trâmites e a cerimônia matrimonial nessa comunidade. Um casamento arranjado como forma de pagar uma dívida, um mafioso sem caráter e uma cerimônia matrimonial muito caótica são os núcleos principais do filme.
Particularmente, esperava um filme muito mais voltado para o caótico e fantástico, que apesar de estarem presentes, como em todos os filmes do diretor, na minha opinião se desenvolvem de uma forma mais fluida e perdem um pouco da profundidade que tinham em outros filmes, até mesmo os menos políticos, como Vida Cigana. Uma cantora que tira pregos da cadeira com as nádegas; uma banda que toca, amarrada em uma árvore; porcos que comem casco de carros velhos; uma pessoa morta amarrada num sinaleiro de trem segurando uma sombrinha, são uma dessas passagens. Esses elementos surreais dialogam com o filme, estão incorporados, mas também não chamam a atenção como seu momento sublime.   
Um filme delicado em sua construção, muito carregado de comicidade, que também possui alguns momentos ásperos,mas por fim deixa desabrochar o lado positivo da vida, em que triunfam o amor e a união, com direito a “happy end” no final. Um Kusturica mais adocicado para aqueles que apreciam da sua arte. 



Leia Mais >>

terça-feira, 15 de maio de 2012

Kusturica no seu Underground [Elisa Carvalho] #2


Nesse post o filme de Kusturica abordado vai ser Underground – mentiras de guerra. Por ser um filme profundamente político, com uma carga muito mais forte que os outros que já vi, imaginei inicialmente que havia feito uma escolha equivocada para falar da temática do fantástico. Mas como não poderia deixar de ser, Kusturica surpreende também nesse quesito.

O contexto é o período compreendido entre a Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria e uma posterior “Guerra na Iugoslávia”, onde se passam os conflitos retratados. Me abstendo de questões ideológicas que o acusaram posterimente de fazer propaganda de certas posturas, tentei pensar mais as sutilezas do filme. As rudezas e crueldades da guerra são de tal formas escancaradas que assustam, mas as diversas metáforas  e a utilização de elementos fantásticos permite desvelar na tela sentimentos que não podem, na minha opinião, ser reproduzidos em uma liguagem simplesmente oral . A música tem um papel fundamental para alcançar esse objetivo, de caráter cigana possui uma carga expressiva muito grande assim como um ritmo marcado e acelerado, que funciona como uma caratse de sentimentos.

A principal metáfora utilizada foi o enclausuramento de várias pessoas no porão, mantidas ali por 20 anos acreditando na existência da Guerra, mesmo após seu término. A sensação transmitida é a de sufocamento, devido a restrição de luz, e ar puro que são submetidas. É forte a idéia de farça, mantida nessa estratégia forjada por Marko, um dos personagens, sensação que pode ser ampliada para o próprio contexto de lutar em uma guerra, em que muitas vezes uma comunidade é induzida a sentir ódio por outra semelhante. “Querida, uma guerra não é guerra, enquanto um irmão não matar o outro”. Atitude levada ao extremo pela morte de Marko pelo seu irmão
Um elemento muito interessante em meio a essa turbulência é um poço que se encontra dentro do porão. Por anos a fio as pessoas que ali viviam só podiam ver ali a sua imagem refletida, e com isso,  esse tivesse o poder de armazenar os seus desejos mais profundos e a possibilidade de suavização da realidade. Em lindas cenas filmadas embaixo dágua mostra o reencontro de pessoas amadas que se jogaram no poço, amigos e amantes vivos, assim como os já mortos. No fim do filme todos convivem harmonicamente a beira de um rio, sem o ódio presente da guerra, apesar de apresentarem marcas.O barranco em que se encontram se desprende do continente, o que sugere levar a lugares desconhecidos, em que novas convivências e identidades poderiam ser construídas. Dígno da Palma de Ouro recebido em Canes em 95.




                                  


                                           
Leia Mais >>

terça-feira, 1 de maio de 2012

O fantástico nos filmes de Kusturica (Elisa Carvalho) #1

Para os ainda não apresentados, Emir Kusturica é um cineasta e músico sérvio. Filmes que abusam do caos, confusões generalizadas, situações familiares, adicionado a elementos de fantasia, e muita música, que perpassa e molda a narrativa.
“Quando Deus desceu a Terra , não conseguiu entrar em contato com os ciganos, logo voltou aos céus”.  Uma das frases iniciais do filme “Vida Cigana” de 1988, pode ser compreendida como um prólogo da obra deste post , que retrata a comunidade cigana como abandonada a sua própria sorte . O filme mostra a trajetória de um adolescente para a vida adulta , esbarrando nesse caminho em dilemas morais envolvendo a máfia cigana, e a perda da inocência.
O fantástico se expressa de diversas maneiras no filme. Uma delas são os dons mágicos apresentados pelo personagem principal, Perhan, que consegue mover objetos com a força do pensamento e a avó do menino, que pode curar pessoas ou amaldiçoar. Como no prólogo, em vários momentos é expressados pelos personagens um sentimento de abandono de Deus na  vida daquelas pessoas, penso, que essa magia pode ser a necessidade de uma manifestação espiritual de um grupo que se sente desamparado.
Uma passagem linda é o primeiro sonho de Perhan. Este se encaminha para um rio, que acontece uma espécie de cerimônia. Mergulhado naquele ambiente onírico, com uma música extasiante o filme conduz novamente a uma religiosidade. Considerei como uma espécie de rito de passagem, em que a inocência, a purificação pela água, fogo e o amor estariam presentes. A partir desse trecho o caminho do personagem para a maturidade vai sendo traçado.
O filme possui uma intensidade peculiar e possibilidade de diversas interpretações. Muito interessante para quem deseja vivenciar algo pulsante, caótico e ao mesmo tempo muito poético!
Leia Mais >>