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quarta-feira, 27 de junho de 2012

A Ditadura Civil-Militar brasileira nas telas de cinema [Thaís Choucair] #5


            "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho", é um trecho da carta deixada para Chico Buarque pela estilista Zuzu Angel, antes apática às questões políticas, mas que, ao ter seu filho torturado e assassinado pela ditadura, iniciou uma batalha para recuperar o corpo e a verdade. Zuzu Angel (2006), de Sérgio Rezende, conta essa história - e com muito mérito. A própria busca que é abordada durante todo o filme pode ser relacionada à busca que se realiza até hoje: onde estão os corpos? Qual a verdade? Diversas famílias ainda sofrem com essas questões, e o filme, mesmo tratando de um caso específico, quer dizer de muitos outros, e essa identificação é possível muito em parte à narração do filme, que é feita pela personagem Zuzu. Isso busca produzir, também, uma maior comoção, o que se anexa à trilha sonora nesse sentido. Mas, mais do que dramático, o filme é crítico sem ser óbvio: apresenta essa possibilidade crítica não apenas pelo diálogo puro, simples e claro, mas através de elementos simbólicos, como as cores e as expressões faciais.
            Apesar de, e me desculpem aqui o spoiler, Zuzu acabar, também, morta pelo Regime, o caráter do filme é abordar algo menos duro e mais emocional, voltado paras as relações pessoais e o impacto da ditadura nessas relações. Nesse sentido, “Zuzu Angel” se aproxima do filme “O ano em que meus pais saíram de férias” (também de 2006), de Cao Hamburger. Mas diferentemente de Zuzu Angel, esse segundo filme não trata de grandes nomes, grandes heróis: trata do cotidiano, trata da insegurança causada pela ditadura nas pessoas, e isso é expresso no filme de forma muito sutil e genial, em pequenas metáforas que, num primeiro momento, parecem casuais, mas causam e dizem muito desse clima tenso que invadia as ruas. Mais do que mortos e torturados, a ditadura alterou a política, a cultura e a sociedade. “O ano em que meus pais saíram de férias” foi a melhor escolha para finalizar o projeto: hoje (e este filme é recente) já começamos a perceber esse período muito além do realismo dos filmes aqui estudados da década de 80 e 90. 
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quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Ditadura Civil-Militar brasileira nas telas de cinema [Thaís Choucair] #4


            O filme “O que é isso, Companheiro?”, devo admitir, foi o primeiro com grande alcance (inclusive em nível mundial) a trazer à tona a Ditadura. Foi um grande “abridor” de espaços. Porém, a tendência a colocar a situação do sequestro na perspectiva do embaixador e a opção por um estilo adotado pelos filmes comerciais americanos da época, como foi apontado no post com a análise desta película, são os primeiros pontos a serem criticados. Mas o problema vai além, muito além. De outro lado, quase como uma resposta, um esclarecimento, o documentário “Hércules 56”, de Silvio Da-Rin, de 2006, que entrevista todos os envolvidos no episódio do sequestro: os idealizadores, os realizadores, e os libertados (aqueles que ainda estavam vivos em 2006).
            Através da participação em algumas mesas de debate do Festival Cinema pela Verdade, pude conversar com algumas pessoas que entendem, ou através da própria vivência, ou através de pesquisas, deste período e destes filmes. Uma dessas pessoas, o próprio Silvio Da-Rin, diretor do filme “Hércules 56”, apontou uma situação já comentada por outras pessoas que participaram de outras mesas: Em “O que é isso, Companheiro?”, o principal idealizador do sequestro se chama Fernando, claramente em associação ao Fernando Gabeira, que participou sim do episódio, mas apenas como ajudante, emprestando a casa que guardou o embaixador estadunidense. Ele não teve a ideia, não escreveu a carta a ser lida na imprensa, não teve o comportamento sensato apresentado pelo filme (que, não por acaso, é uma adaptação do livro de Gabeira). Nessa produção, o personagem do militante que comanda o sequestro, bem mais velho e operário, é construído de forma a ser visto como “ruim” (dentro do já bem conhecido maniqueísmo fílmico). Todos os participantes daquele sequestro na realidade concordam: ele está longe de ser ruim, se aproximando muito mais de herói. É evidente que questões do tipo são controversas. De vilão a bonzinho existe um abismo. O que é incompreensível é ignorar os principais personagens (talvez quase todos) de um evento ao tentar retratá-lo (pasmem, com uma estética realista) em um filme. Ao ser perguntado por que Fernando Gabeira não aparece em Hércules 56, Silvio Da-Rin é claro: apenas porque ele não foi, de fato, relevante para o processo. Ajudou, é claro, não se pode ser injusto. Mas não estava presente no recorte realizado pelo diretor ao escolher quem entrevistaria.
            As escolhas dos dois filmes no que dizem respeito à linguagem já dizem muito dos seus conteúdos e controvérsias. Enquanto “O que é isso, Companheiro?” busca uma verossimilhança, “Hércules 56” admite-se como um documentário. No cenário onde estão sentados e são entrevistados os realizadores do sequestros – uma mesa - várias câmeras se posicionam, e as mesmas são mostradas intencionalmente. Assim, Silvio Da-Rin coloca o filme admitindo-se filme, admitindo-se um recorte, e não almejando ser a realidade, o que nunca será, assim como nenhuma outra película. 
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quarta-feira, 13 de junho de 2012

A Ditadura Civil-Militar brasileira nas telas de cinema [Thaís Choucair] #3



       Batismo de Sangue (2007), de Helvécio Ratton, conta a história de luta e a repressão sofrida por Frei Tito. É possível aproximá-lo dos outros dois filmes analisados anteriormente (“O que é isso, Companheiro?” e “Lamarca”). O diretor, Helvécio, lutou contra o regime militar, o que pode explicar, em parte, a escolha pela estética realista. As cenas de tortura são fortes, a violência tem grande espaço no filme, mas não da mesma forma que as outras duas produções analisadas na última quinzena que acabei de citar. Ao contrário delas, “Batismo de Sangue” é dramático através do enredo, as cenas são fortes graças à sua significação dentro da narrativa, e não por serem violentas por si só, como acontece naqueles dois filmes. O filme provoca revolta no espectador, o faz querer ir contra aquilo retratado, pois tenta se aproximar da verossimilhança, como um filme documento.



O filme Cabra-Cega (2005), de Toni Venturi, emociona e inspira. A produção aposta em atingir aspectos psicológicos em relação ao período que retrata. Ao assistir, consigo enxergar dois principais. O primeiro, a sensação de prisão que é passada, tanto através do roteiro (um militante, Thiago, que precisa ficar escondido para não ser pego pelo regime) como das escolhas cinematográficas (câmera tremendo, barulhos vindos da rua se repetindo de forma a causar certo desespero, planos fechados, ou seja, com muito zoom, etc.)


O segundo aspecto é mais inspirador: a película não pretende resgatar uma memória fechada, mas sim reviver os sentimentos daqueles que lutaram contra a ditadura; mostrar que esses sentimentos estiveram presentes em diversos momentos da História e, principalmente: eles ainda existem. A vontade de lutar, de forma tão forte que pode chegar a ser inconsequente, não importando nenhuma consequência. Lutar no escuro, mas lutar. 
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domingo, 13 de maio de 2012

A Ditadura Civil-Militar brasileira nas telas de cinema [Thaís Choucair] #2



           Em primeiro lugar, peço desculpas. Cometi um erro na primeira parte do meu projeto: a ditadura brasileira é erroneamente nomeada de ditadura militar. O nome correto e defendido por toda a comunidade acadêmica e política hoje em dia é ditadura civil-militar. Um simples termo altera substancialmente essa história: a participação do setor empresarial e jurídico é inegável - os militares não agiram sozinhos. Com tudo esclarecido, voltemos ao projeto.

           Após analisar dois filmes bem próximos ao fim da ditadura, é hora de avançar um pouco no tempo. Em 1994, é lançado o filme Lamarca, dirigido por Sérgio Rezende, trazendo a história de Carlos Lamarca, ex-capitão do exército brasileiro que, ao desertar, entrou para a luta armada contra o regime.  Ao assistir o filme, percebi que ele foca a trajetória do personagem, e destaca a luta, as armas de fogo, a violência, tanto do lado dos militares, quanto do lado da resistência. Essa preferência é, no mínimo, polêmica, e, num âmbito maior, coloca uma questão interessante. É sabido que: 1. Apenas uma parcela ínfima da resistência à ditadura resolveu aderir à luta armada; 2. O movimento estudantil foi um dos, se não o maior, destaque quando pensamos na luta contra a ditadura; 3. As feridas deixadas pelo regime militar eram muito maiores que a tortura - outras coisas como a censura, o corte de programas de alfabetização, etc., são, talvez, mais traumáticos. Nenhum desses três pontos é considerado no filme Lamarca. E aí entra a questão: em que medida um filme, ao tratar de uma história tão relevante a uma sociedade, tem a licença histórica de retratar de maneira tão divergente um período? Se nenhum filme é um recorte real, pois isso é impossível, como condenar um e qualquer outro não? Porém, como não questionar uma película que faz um recorte tão omisso?


       Essa mesmíssima questão está presente no segundo filme dessa quinzena. O que é isso Companheiro?, de 1997, dirigido e produzido por Bruno Barreto, que levanta ainda mais polêmica. Mais que isso: a licença histórica a que ele se apossou chegou a chatear e ferir diversos envolvidos do episódio que o filme narra. Um grupo de resistência, no auge da ditadura civil-militar, ao se ver sem nenhuma forma de serem ouvidos, sequestram o embaixador americano e, como resgate, pedem que 15 presos políticos sejam soltos e que uma carta, feita pelo grupo, seja lida em rede nacional. Sobre o embaixador americano, é evidente que, dentro do filme, ele é o mais sensato, aquele que nunca mostra um lado passível de crítica, aquele que tem a cabeça aberta e escolhe sempre “o lado certo”. Já todos os outros personagens (ou a maioria, ou os principais), sofrem a proposta da negação do maniqueísmo, ou seja, mostram virtudes e defeitos, mostram um lado humano e outrora um lado mais próximo do mal. 
       Concomitante a isso, temos no filme várias cenas faladas em inglês, até mesmo narração em inglês, quando (e aí podemos destacar outro aspecto importante) o embaixador descreve os militantes. Ou seja, a imagem de cada militante é levada a ser criada no imaginário do espectador com grande tendência àquela descrita pelo estadunidense que fora sequestrado. Além de todo esse destaque ao embaixador e essa evidente áurea criada nele, temos um aspecto cinematográfico que se relaciona aos fatos anteriormente apontados nesse parágrafo: o filme é voltado para a ação, o filme é construído em torno do sequestro, em torno do que aconteceria. As cenas são fortes, em todos os vieses, através da cena em si, da atuação da cena em si, e não através da construção dos personagens e da montagem das cenas. Isso é relevante na discussão começada pois essa preferência à ação presente na película é enormemente perceptível em diversos filmes da mesma época produzidos e aclamados mundialmente. Como é sabido, até hoje e principalmente naqueles anos, a produção midiática de todo o tipo foi influenciada e dominada pela escola americana, não importando aqui o mérito dessa influência. 

        Ora, se o embaixador americano foi construído de tal forma, se temos diversas falas e narrações em inglês, se a produção segue padrões na moda americana, “O que é isso, Companheiro?” se preocupa mais com o caráter histórico do que apresentava ou com a repercussão do filme em si?


         Nota: Observem as capas dos filmes. Nas duas temos o vermelho, a arma, a ação.
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segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Ditadura Militar brasileira nas telas de cinema [Thaís Choucair] #1


              

              Tortura, mortes, censura. Chegam os anos 80: após um árduo período sofrendo a Ditadura Militar, o Brasil consegue respirar novamente. Mas tais anos calados, sufocados, haveriam de deixar marcas. Na memória, na consciência, na História do Brasil. O que se passara nos porões militares, nas ruas, nas mentes, precisava ser mostrado, dito, gritado. O cinema foi – e é – um dos principais meios (e fins!) utilizados para retratar tal época. Porém, um período tão complexo, tão silencioso, e tão importante, não poderia deixar de gerar visões com tantas diferentes facetas. A História da Ditadura não é uma, nem duas, nem três: são várias. Tal como são suas representações fílmicas. E grande parte delas viveu ali, em fitas e depois DVDs, colecionadas no armário da sala, prontas para que alguém mergulhasse nelas. E aqui vou eu.

            1982: Roberto Farias lança “Pra frente Brasil”. No roteiro, dentre outras coisas: tortura, participação americana no treinamento de militares brasileiros, financiamento feito por civis (empresários brasileiros), da “caça” aos subversivos: assuntos que eram, absolutamente, tabus. O filme foi censurado, depois cortado. Só em 1983 foi exibido inteiramente. Na produção, um homem comum, Jofre, é preso por engano em 1970, ao pegar um taxi com um “subversivo” procurado pela polícia. O enredo é visto sob a ótica da família de Jofre, que sofre procurando-o, primeiramente por vias formais (de acordo com o filme, a sociedade não fazia a mínima ideia do que se passava graças à censura) e, depois, pela ilegalidade. Jofre é torturado, exigiam que ele contasse o que sabia. Tais cenas da tortura são intercaladas com cenas da Copa do Mundo de 1970 no México, e, no ápice do filme, a morte de Jofre, a Seleção Brasileira comemora o tricampeonato. É retratada uma vitimização da população brasileira, que não sabia de nada e ficava ao meio da perversidade dos militares e da irresponsabilidade dos militantes: o herói do filme é um homem comum.

            Em 1981, é lançado “Eles não Usam Black Tié”, filme de Leon Hirszman. Já essa produção não trata da ditadura diretamente, e não volta alguns anos no tempo, para aqueles piores (na década de 70), mas é sobre seu próprio período, quando se iniciava a abertura política. Na trama, numa cidade pobre onde a maioria das pessoas trabalhava em uma fábrica, uma greve é organizada. O filme mostra, sim, a repressão militar batendo e contendo a greve nas ruas. Porém, o ponto mais intrigante é a indecisão de um jovem, de 20 e poucos anos, que ficava entre a greve, tomada de frente por seu pai, e a gravidez de sua namorada, a qual ele pensava que devia sustentar e cuidar. Uma cena do filme sintetiza, ao meu ver, uma questão importantíssima apresentada por tal produção: o pai do jovem, quando este último fica amedrontado em participar do movimento sindical, diz que o entende, entende seu medo, seu receio, pois ele havia crescido na Ditadura. 


Desta fala e de outras é que pude refletir: as marcas da Ditadura podem ter sido muito mais internas e subjetivas do que já se pôde imaginar. 
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