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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Daquele Instante em Diante [Gislene Portilho] #5






“Meu nome é Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, Nego Dito Cascavé.” Era assim que se apresentava Itamar Assumpção da música Nego Dito.
Nego Dito foi apresentado a mim através do documentário Daquele Instante em Diante no ano de 2011 que foi exibido uma única vez em BH no Indie Festival.
O documentário "Daquele Instante em Diante" percorreu a trajetória musical de Itamar Assumpção, dos anos da vanguarda paulista, na década de 1980, até a sua morte, aos 53 anos. Nas quase duas horas de filme foram apresentados depoimentos de amigos, artistas, ex-companheiros de palco e familiares e ainda trouxe diversas e raras imagens de arquivos.
Foi pensando neste documentário que decidi o tema de pesquisa para este trabalho. Até aquele momento eu nada sabia sobre o músico e no desenvolvimento da disciplina Projetos A I fui buscar informações. Acabei descobrindo um artista independente, rebelde, criativo, performático, autor de letras contestadoras da ordem e arranjos atonais. Uma figura que se destacou no cenário cultural brasileiro dos anos 1970/1980 e que mesmo sem associação a nenhuma grande gravadora conseguiu produzir e distribuir 12 discos.
Voltando ao documentário, os relatos emocionaram, as imagens marcaram e as canções surpreenderam.  A história contada foi muito bem conduzida pelo diretor Rogério Velloso . Vários ‘Itamares’ apareceram no vídeo: o compositor, o poeta, o performer, o arranjador, o instrumentista, o amante das plantas, o  homem caseiro, o gênio.  As várias aparições de Itamar nos ensaios e shows deixaram evidentes que sua presença era muito mais intensa nestes eventos do que em gravações. Intenso! Este é O adjetivo para Itamar Assumpção . Sua obra é intensa e reflete a característica do próprio artista.
No Indie, no fim da sessão, não era raro presenciar várias pessoas com os olhos inchados e vermelhos  que se entreolhavam como que buscando a confirmação no outro de que o filme tinha feito uma justa homenagem  ao legado do músico apresentando-o aos novatos e renovando uma memória que não deve ser esquecida.
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segunda-feira, 11 de junho de 2012

O músico na intimidade [Gislene Portilho] #4



Trailer do documentário "Daquele Instante em Diante" de Rogério Velloso

O documentário Daquele Instante em Diante ( Rogério Velloso, Brasil, 2011) apresentou um pouco da vida do artista na intimidade. O músico cercado por amigos, andando nas ruas do bairro, tomando cafezinho na mesa de casa foram algumas cenas que embelezaram o filme e trouxeram um pouco da dimensão do homem comum que o artista ocupava quando não estava no palco. As imagens de arquivo o apresentou em meio às suas orquídeas –  As orquídeas do Brasil, nome dado por ele ao grupo de mulheres cantoras e instrumentistas que o acompanhava; e às orquídeas flores, floridas, coloridas, perfumadas – eram as preferidas do artista.
Capa do disco "Bicho de 7 cabeças" de 1993 - Itamar Assumpção e suas Orquídeas do Brasil


Outros momentos marcantes foram aqueles dos depoimentos das filhas Anelis e Serena sempre carregados de admiração e muita emoção falando do pai amigo e presente na vida de ambas, na medida em que a profissão permitia. Houve depoimentos também da mulher Zena Brigo e da  poeta e compositora Alice Ruiz com quem o compositor foi casado também.

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Influências recebidas e deixadas por Itamar Assumpção [Gislene Portilho] #3




A genialidade de Itamar Assumpção não foi fruto somente de seu talento musical. Sua produção musical apresenta marcas das influências artísticas recebidas ao  longo de sua carreira. Influenciado por trabalhos de músicos de variados gêneros como Adoniran Barbosa, Cartola, Jimi Hendrix e Miles Davis, o artista misturava com maestria samba, elementos pop, Black music e musica africana. Sem falar da presença sempre constante de poetas em sua vida como Paulo Leminski e Alice Ruiz. Dessa rica mistura surgiramm letras críticas, irreverentes e a musicalidade característica de Itamar.

Outro brasileiro por quem Itamar tinha grande admiração era o sambista Ataúlfo Alves. Em 1995 gravou um CD só com músicas do sambista chamado Ataulfo Alves por Itamar Assumpção – para sempre agora.
Quanto às influências deixadas pode-se perceber que foram grandes a julgar pela quantidade de artistas que já gravaram composições de Itamar Assumpção. Citando só os mais conhecidos: Arrigo Barnabé, Cássia Eller, Chico César, Elba Ramalho, Luiza Possi, Ney Matogrosso, Ná Ozzetti, Rita Lee, Tetê Espíndola, Tom Zé, Zélia Duncan, Naná Vasconcelos, Ceumar e mais recentemente o rapper Criolo.

Zélia Duncan gravou diversas músicas de Itamar (Vou tirar você do dicionário, Código de Acesso e Capitu, por exemplo). Ele participou, inclusive,  do lançamento do disco dela Intimidade no Canecão em agosto de 1997.Ney Matogrosso não só gravou composições de Itamar Assumpção como Finalmente, Bomba H  e Transpiração,  como realizou no ano passado um show em homenagem ao músico junto com a Banda Isca de Polícia (que acompanhou Itamar por vários anos de sua carreira).


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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Às própria custas S/A [Gislene Portilho] #2



O espaço para a produção musical independente nos dias atuais tem se ampliado no Brasil. Há pouco mais de 10 anos,  os independente  tem se organizado e se apresentado em festivais exclusivamente planejados para este tipo de produção cultural. Na década de 1980, em um cenário totalmente diferente do que se percebe hoje, quando não se falava em discos independentes, o músico Itamar Assumpção ousou produzir três de seus discos à margem das grandes gravadoras (nas duas décadas seguintes vieram outras oito produções). São desse período Beleléu, Leléu, Eu (1980), Às Próprias Custas S/A (1982) e Sampa Midnight – Isso não vai ficar assim (1983).
Itamar não submetia sua produção às gravadoras assim como os outros artistas companheiros seus da Vanguarda Paulista, grupo que fazia parte.  Dos 12 LPs gravados  por ele, o único que foi produzido por uma gravadora de peso –  a Continental - foi o Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!! de 1988. Os demais foram todos gravados de forma independentes com recursos próprios.
Sem associação a nenhuma gravadora a saída para divulgar sua música  foi inicialmente nas apresentações ao vivo e os festivais de música eventuais. Posteriormente o Lira Paulistana (teatro aberto em 1979) proporcionou um espaço favorável à sua produção experimental e performática.
Muitos atribuem sua grande força expressiva e sua criatividade sem censura ao fato de sido artista independente. De fato, não é possível saber se sua capacidade inventiva teria sido cerceada caso tivesse se associado a alguma gravadora, a verdade é que a despeito das condições precárias de gravação e distribuição, Itamar produzia pérolas como “Nego Dito” – confira no link abaixo.


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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Itamar Assumpção, o independente [Gislene Portilho] #1





Itamar Assumpção foi um grande artista brasileiro. Cantor, compositor, instrumentista, arranjador e produtor musical marcado por seu talento e excentricidade, produziu quase a totalidade de seus discos de forma independente.
Entre os anos 1970-1980, tornou-se referência da Vanguarda Paulistana junto com outros artistas importantes como Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti. Na Vanguarda, desafiou os formatos tradicionais de canção, injetando atonalismo e experimentalismo na música popular, chocando acadêmicos e  boa parte do público que se espantava com suas letras e performances no palco.
O artista gravou discos considerados antológicos como "Beleléu", "Às Próprias Custas S/A" e "Sampa Midnight". Ao longo de sua carreira estabeleceu fecundas parcerias com Arrigo Barnabé, Naná Vasconcelos, Luiz Tatit, Jards Macalé, Paulo Leminski, Alice Ruiz, dentre outros.
O termo independente sempre associado a Itamar Assumpção não se referia somente ao fato de ele ter conduzido todo processo de gravação, distribuição e divulgação de seus discos como também se referia a uma postura estética que não seguia padrões do mercado fonográfico. Por sua atitude desafiadora, intransigente e intempestiva e a sua não associação a nenhuma gravadora era chamado por parte da imprensa como maldito e marginal. Recusava estes adjetivos com frequência, sempre dizia em seus shows “não sou marginal, sou um artista popular brasileiro”. 
E foi, sem dúvida, dos grandes. Deixou 12 discos gravados e uma história musical impressionante.



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