"Se
eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do
meu amado filho", é um trecho da carta deixada para Chico Buarque pela
estilista Zuzu Angel, antes apática às questões políticas, mas que, ao ter seu
filho torturado e assassinado pela ditadura, iniciou uma batalha para recuperar
o corpo e a verdade. Zuzu Angel (2006), de Sérgio Rezende, conta essa história
- e com muito mérito. A própria busca que é abordada durante todo o filme pode
ser relacionada à busca que se realiza até hoje: onde estão os corpos? Qual a
verdade? Diversas famílias ainda sofrem com essas questões, e o filme, mesmo
tratando de um caso específico, quer dizer de muitos outros, e essa identificação
é possível muito em parte à narração do filme, que é feita pela personagem
Zuzu. Isso busca produzir, também, uma maior comoção, o que se anexa à trilha
sonora nesse sentido. Mas, mais do que dramático, o filme é crítico sem ser óbvio:
apresenta essa possibilidade crítica não apenas pelo diálogo puro, simples e
claro, mas através de elementos simbólicos, como as cores e as expressões
faciais.
Apesar
de, e me desculpem aqui o spoiler, Zuzu acabar, também, morta pelo
Regime, o caráter do filme é abordar algo menos duro e mais emocional, voltado
paras as relações pessoais e o impacto da ditadura nessas relações. Nesse
sentido, “Zuzu Angel” se aproxima do filme “O ano em que meus pais saíram de férias”
(também de 2006), de Cao Hamburger. Mas diferentemente de Zuzu Angel, esse
segundo filme não trata de grandes nomes, grandes heróis: trata do cotidiano,
trata da insegurança causada pela ditadura nas pessoas, e isso é expresso no
filme de forma muito sutil e genial, em pequenas metáforas que, num primeiro
momento, parecem casuais, mas causam e dizem muito desse clima tenso que
invadia as ruas. Mais do que mortos e torturados, a ditadura alterou a política,
a cultura e a sociedade. “O ano em que meus pais saíram de férias” foi a melhor
escolha para finalizar o projeto: hoje (e este filme é recente) já começamos a
perceber esse período muito além do realismo dos filmes aqui estudados da década
de 80 e 90.
Bem legal seu texto, Thais!
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